José Silvino pegou a Cr250 zerinho, zerinho na caixa. Era o seu sonho. Desde pequeno sonhava com aquela máquina. Aquela CR, a legendária Honda. Silvino foi o primeiro dono de uma moto que nós do ramo chamamos de “quebradeira”. Há motos que quebram o piloto e há motos que quebram a banca do piloto. Essa CR fez a duas coisas. A história de Silvino se repetiu com todos os donos. Iludir e depois quebrar ou o cú ou a banca de todos seus 16 donos. Sem exceção! Há humores que a CR matou um Argentino, mas não tenho certeza. Se matou que pena!!
Quando peguei essa moto em 2004 ela já tina 11 anos. Foi comprada originalmente na Moto Matsuo, era oficial e curiosamente tinha um aro 18 na traseira, estranho para uma CR motocross de 1993. A moto estava na região há alguns anos e tinha quebrado pelo menos dois cabruncos. O primeiro oriundo da França porrou numa van lotada e o segundo, um Israelense caiu de um penhasco em cima do telhado de uma casa. Todos dois chuparam sopa pelo canudo e viam nos sonhos a vó pela greta. Nenhum dos dois voltou a andar de moto.
Comprei a moto de Luminária que achou a CR jogada no tempo e pagou uma mixaria, afinal, o cara quase que deu a moto. Satisfeito que tinha pegado uma CR a preço de Banana o iludido ”esperto” mandou “reformar”, gastou 3 mil, montou o seu cú em cima só pra voltar empurrando. Quebrou o pistão. Conserto feito conserto próximo: Quebrou o link do amortecedor. “Puta Merda!” Pensou o Luminária, “vou passar essa merda.”
Chegou eu. Levei meu mecânico,o Zé Marreta, que era um louco por CR, mesmo que fosse uma merda quebradeira. “Velho, O quadro ta soldado, mas filé” dizia Marreta. “Velho, OS ROLAMENTOS DO LINK não existem E O LINK TEM UMA SOLDA, MAS TÁ DOMINADO” DIZIA COM UM OLHAR DE VIDRO. “Velho o motor ta com um barulho de rolamento no primário, mas que motorzão!!” Babava o mecânico Marreta. Mesmo sabendo no íntimo que tava comprando um sanhaço, gamei. Afinal aquilo era uma CR.
Testei a moto no condomínio e quando pulei o quebra mola delirei. “Que motorzão, Que suspensão!” pensei eu no auge da demência. Dia seguinte quebrou a solda do link levando o amortecedor junto. Consertei. O radiador furou comprei um novo. Os rolamentos do link e chassis tudo fudido. Comprei e botei novo. Roncou motor comprei o kit. Quebrou palheta de torque comprei um Boyesen. O carburador fudeu. Botei novo. No final das contas. Gastei 10 mil só de peças
Ai o extraordinário aconteceu. Marreta meu mecânico ofereceu comprar a moto depois que botei tudo, mas tudo novo. Dez mil de novo!! Mal acreditando que um mecânico compraria aquela merda e disfarçando a minha incrível alegria, vendi. Fomos fazer uma trilha juntos, e, ao passar num rio, quebrou a carcaça a 50 km do nada. Mais mil de conserto.. e com a carcaça foi o resto das engrenagens do kick. Marreta até hoje senta de lado e não consegue virar o pescoço. Legado da fumada no seu rabo e o tombo nas dunas que quase o matou.
Aí o inusitado aconteceu. O Luminária comprou a moto de volta por 3 mil do Marreta. Luminária emprestou a moto pra outro Argentino que sem saber do “passado” da CR montou seu cú amplo no banco. A corrente soltou da coroa e quebrou a carcaça do outro lado. Mais 3 mil. Vendeu pra um otário de Rio das Ostras que andou sem óleo e fudeu o motor.
Passaram-se alguns anos. Era crepúsculo. Grande, de Casimiro, aparece na penumbra em minha oficina e me traz para troca uma CR “filé” toda original. Na sombra da noite a moto reluzia como um raro brilhante de mil e uma noites. Vidrei. Negocio fechado. No dia seguinte de manhã olhei a moto com carinho. Olhei a balança. Estava escrito “Motobase” adesivo que o Argentino moribundo tinha colocado na moto. Era ela a CR!! Tinha voltado para mim! Inacreditável”.

As crs receberam aro 19 a partir de 1995.
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